Sexta, 31 Agosto 2018 09:46

Como deve votar um cristão?

Os políticos que usam a simplificação como método tentam dividir a comunidade jogando os interesses de diferentes grupos uns contra os outros. É o que escreve o pároco Dominik Terstriep, que simultaneamente apresenta cinco desafios para os cristãos em tempos de eleição.

Em quem um cristão deve votar? Seria tolice a igreja recomendar um partido político específico. Provavelmente, os cristãos se envolvem em todos os partidos, justamente a partir de suas crenças. O cristianismo não pode ser confinado a um único grupo político, mas deve passar por todos os movimentos. Está por cima da política partidária, sendo, ao mesmo tempo, altamente político. A fé é de fato pessoal, mas não privada. Ela afeta nossas ações também no espaço público, e não menos na política. E os cristãos têm a missão de moldar o mundo nas pegadas do Cristo.

Onde um cristão deveria colocar sua voz? Como tomar uma decisão responsável? Por um lado, existem pontos - isso em todos os programas partidários - que são complicados de aceitar ou incompatíveis com a fé. Por outro lado, há elementos que podem ser apoiados de todo coração. Mas é preciso decidir.

Um programa partidário puramente cristão não existe, provavelmente nem pode existir. Não, não vou recomendar um partido. Essa decisão é do indivíduo, que pode analisar os programas dos diferentes partidos e ver se sua convicção é grande o suficiente para dar seu voto a um partido.

Mas além de um conteúdo concreto, podemos tentar aplicar um critério formal para estabelecer uma opinião. Como uma determinada política é implementada? Como os problemas e os desafios são apresentados? Se eu tivesse que apontar um fenômeno em relação à questão da forma, eu mencionaria a simplificação. Não, não é errado apresentar as coisas de forma simples. As pessoas devem, de fato, compreender as questões tratadas.

No entanto, existe uma simplificação indevida que distorce as coisas. Por exemplo, no caso em que se propõem políticas com base em uma única perspectiva ou um único ponto de vista a partir do qual se olham todas as demais questões. Com essa perspectiva estreita, veem-se todos os problemas e se apontam soluções para eles. Com base numa ideia central, acredita-se ser capaz de explicar tudo, incluindo desafios complexos que sempre são relacionados à mesma ideia-chave. Encontram-se rapidamente os culpados, assim como as medidas que em breve melhorariam a situação. Há apenas um certo ou errado, e é claro quem está certo.

A esta tendência cada vez mais evidente podemos dar o nome de “o doce veneno da simplificação”. A simplificação tem um gostinho bom porque oferece explicações rápidas e, portanto, uma forma de ver o mundo que, de outra maneira, seria muito mais complicado e difícil de entender. Parece nos dar espaço para a ação, quando muitas vezes nos sentimos paralisados ​​pelos muitos e difíceis problemas. Imagine se pudéssemos resolver o nó górdio com um único golpe de espada!

A simplificação parece doce no começo, mas a longo prazo nos envenena e leva a sociedade a um beco sem saída. Partidos políticos cujo método consiste apenas em simplificar as coisas tentam dividir a sociedade, jogando os diferentes grupos e interesses uns contra os outros. Isso, por sua vez, torna difícil encontrar soluções para os problemas atuais, o que termina beneficiando justo aqueles que apoiam as simplificações. Eles têm a solução, que infelizmente não é usada pelos outros. Se você apenas fizesse como eles sugerem, tudo estaria bem.

No entanto, o mundo, com todos os seus desafios, não é tão simples como alguns querem nos fazer acreditar. Tudo está entrelaçado e todos estão conectados uns aos outros. O que muda de um lado afeta o outro. Por exemplo, você deve comer menos carne e, portanto, focar sua alimentação em peixes para combater as emissões de gases de efeito estufa? Os salmões de criação na Noruega quase se tornaram vegetarianos e são alimentados principalmente com soja (misturada com uma pequena porção de farinha de peixe). Mas a soja é importada do Brasil, onde a indústria agropecuária expulsa os pequenos agricultores de suas terras, desmata a floresta tropical e cultiva a soja com ajuda de muitos pesticidas e produtos químicos. Todos esses ingredientes estão agora no salmão.

O que é certo, o que é errado? Muitas vezes é difícil determinar. Portanto, precisamos de uma consciência da relação entre todas as coisas, que é a chave da carta de 2015 do Papa Francisco sobre meio ambiente e justiça[1].

Quando as pessoas disseram pela primeira vez “eu”? Quando elas se tornaram conscientes de que são indivíduos? Talvez quando elas se eternizaram na "caverna das mãos" Cueva de las Manos na Argentina, 13.000 a 9.000 anos atrás. A arte rupestre com centenas de mãos é um dos Patrimônios Culturais da Humanidade da UNESCO[2]. A maioria das figuras é de mãos esquerdas. Provavelmente as pessoas borrifaram a cor com um tubo que seguravam na mão direita, enquanto com a mão esquerda se apoiavam contra a parede da caverna. Cada mão é única, mas elas estão em contato umas com as outras. É precisamente isto que constitui essa tensão frutífera e às vezes conflitiva entre o eu e os outros, entre indivíduo e comunidade.

Como podemos, como cristãos, reagir à tendência de simplificar indevidamente? Como podemos contribuir para dar à política uma outra cara? Deixe-me ousar formular cinco convites:

  • Tente ser uma pessoa interessada na totalidade, em um tempo cada vez mais marcado por interesses particulares!
  • Aposte numa lentidão sustentável! O bem é quase sempre mais lento do que o mal. Basta pensar em quanto tempo uma floresta leva para crescer ou em quanto tempo um ser humano demora para ficar livre de um mau hábito. Aqui, o Cristo pode ser nosso exemplo. Ele, o “Todo Bom”, levou tempo, fez o caminho do ser humano, do ventre da mãe até ser pessoa adulta, e assim redimiu toda a vida humana.
  • Veja a realidade em toda sua complexidade! Jesus entrou nessa realidade humana, se aproximou das pessoas e de seus problemas e julgou as coisas, não de longe ou só de ouvir. Ele escutou as necessidades das pessoas e ensinou os seus a agir como ele mesmo agia.
  • Seja cuidadoso com a linguagem, que deve ser respeitosa e precisa! Os cristãos devem ter uma sensibilidade especial às palavras. A Palavra é preciosa para nós porque ela vem de Deus. Sim, o próprio Deus é a Palavra que se tornou carne.
  • Tenha cuidado com as instituições! Jesus fundou uma Igreja para que sua mensagem pudesse ser transmitida e preservada através dos tempos. Nós, cristãos, devemos estar atentos às instituições que, com suas estruturas objetivas, ajudam a resolver problemas, julgar, negociar, preservar normas e assegurar que as coisas funcionem, independentemente dos interesses particulares dos indivíduos ou dos donos do poder.

A questão de como enfrentar desafios políticos e sociais é importante. As formas escolhidas para isto não são inocentes. Elas afetam os conteúdos das políticas e vice-versa. Questões de forma também podem, juntamente com questões substantivas, ser decisivas para nossas escolhas.

 

Artigo publicado sob o título "Hur ska en kristen rösta?", no periódico Dagen, jornal diário cristão politicamente independente, por Dominik Terstriep, padre jesuíta e pároco da Paróquia de Sankta Eugenia, em Estocolmo, Suécia. Traduzido por Sandra Paulsen, estudante de Teologia no ISB. Para o original, siga o link: https://www.dagen.se/kultur/dominik-terstriep-hur-ska-en-kristen-rosta-1.1193668 

[1] N.T. Laudato sí, "Sobre o Cuidado da Casa Comum", encíclica papal de junho de 2015.

[2] https://whc.unesco.org/en/list/936